Gustavo Valério

O Poeta Soturno

✑ Na Casinha Solitária

casa solitaria
Cansado de estar nos mesmos lugares e com as mesmas pessoas, resolvi iniciar uma jornada pelo Brasil. O objetivo era conhecer lugares e pessoas novas, além de encontrar o lugar o qual eu desejava para construir minha estadia definitiva.

Sempre fui de apreciar a solidão e os sons da natureza. Os sons das cidades já haviam me entorpecido o suficiente, não havia nada mais interessante nas cidades, nem mesmos as pessoas que agora pareciam robotizadas pela tecnologia e conforto proporcionados...

Não precisei ir longe o bastante. Aqui mesmo no nordeste, durante as minhas viagens, encontrei uma moça, no mínimo, interessante. O nome da raridade: Elizabeth. Conheci-a por acaso numa das principais livrarias do Pará. Moça bela, rosto bem desenhado, corpo bem definido, mesmo tenro, respirava candura e tinha um ar vazio, como se algo lhe faltasse, sua feição lembrava uma índia.

Admirei-a por alguns minutos antes de, por acidente, chamá-la achando que era funcionária da livraria. Eu procurava pelo único livro já publicado pelo grandioso poeta paraibano Augusto dos Anjos e solicitei informações a ela sobre o livro. Por obra do destino ou do acaso ela estava portando o único exemplar de tal livro que ainda existia naquela livraria!

Após alguns minutos de conversa, descobri que ela jamais trabalhara ali, tinha ido apenas buscar o mesmo livro que eu... Não havia outro exemplar, e quando soubemos disso, um clima estranho e ao mesmo tempo doce, como perfume de rosas, tomou-nos naquele instante.

Ela com a voz bem doce e meiga falou baixinho que, se eu morasse na cidade, ela não teria problemas em me emprestar o livro depois que lesse. Sem encontrar palavras adequadas para respondê-la mediante a sensação de ter encontrado El Dorado, apenas disse que estava de passagem pela cidade e logo iria embora.

O semblante dela mudou um pouco, mas seu entusiasmo falou mais alto e ela disse que não teria problemas em lê-lo comigo, caso eu permitisse. Vi os olhos dela brilharem ao olharem os meus, como se dois sóis estivessem nascendo bem ali, na minha frente... Uma visão incrível! Maravilhado com tamanha perspicácia de alguém aparentemente tão jovem, aceitei a proposta.

Saímos da livraria e fomos para o hotel onde eu estava hospedado. O que estava acontecendo conosco era tão novo e intenso que não sabíamos como reagir; éramos duas crianças desembrulhando o presente na noite de natal. Descobri que ela era viciada em livros como eu e, apesar de jovem, já havia devorado uma quantidade significante de obras, o que a tornou ainda mais interessante.

Era inteligente, meiga, bela e doce mesmo quando tentava não ser. Sua voz era tão gostosa de se ouvir que, enquanto ela falava, eu ouvia uma sinfonia inteira saindo de suas cordas vocais. A forma como ela falava e gesticulava, movendo o pescoço e sendo sensual sem querer era simplesmente incrível. Ela estava fisgando-me por inteiro sem saber... Nem eu sabia.

O tempo passou lentamente e minha estadia no Pará foi sendo prolongada por conta de Elizabeth. Éramos amigos há alguns meses; sai do hotel e aluguei uma casa pois já não queria ficar longe dela. Todos os dias ela passava na minha casa para ler algo comigo e eu sempre a esperava ansioso. Quando corações estão ligados um ao outro, o tempo muda completamente e os dias parecem depender de pelo menos um sorriso do outro...

Depois de alguns meses como amigos, contei-a o meu plano de me isolar do mundo e habitar num local onde só eu e minha sombra pudessem ocupar o mesmo lugar simultaneamente. Os olhos dela brilharam novamente, ela disse que esse também era, em parte, seu sonho. Tal afirmação soou estranha na hora e eu fiquei ali, frente a frente com ela sem nada dizer, e ela, quieta, encarou-me fixamente no silêncio fúnebre... Todos temos nossos breves momentos de loucura mas naquele momento, minha loucura parecia ter coincidido com a dela...

Eu sem reação alguma, parecia uma estátua de mármore... Ela abraçou-me pela primeira vez... Seus braços finos, leves e macios cercando-me fortemente me fizeram sentir-me flutuando sob as nuvens... E flutuei tão alto que ouvi um anjo balbuciar em meu ouvido que eu era um ótimo amigo...

E ainda flutuando, senti as asas desse anjo se movimentando, gerando uma suave brisa e, de olhos fechados apenas concentrado naquele momento surreal, senti os lábios do anjo tocando os meus... Ela me beijou pela primeira vez e eu continuei sem saber como reagir...

Como ficamos tanto tempo perto um do outro sem nos entregar mesmo tendo tanto em comum?
Como resistimos um ao outro se nossos sonhos, desejos e planos se atraiam fortemente?

Eu sendo mais velho que ela, estava aprendendo a arte fina e mágica... Era incrível o quanto eu não sabia de nada daquilo que ela estava me fazendo viver e sentir... Seus lábios destilavam um tipo novo de mel, parecia amargo, porém era bem doce e anestesiante...

Depois desse momento incrível, nossas almas até então inexistentes nasceram e se uniram ali mesmo, sob o livro de Augusto dos Anjos... Não encontramos o amor ali, era algo muito mais forte e intenso, era um elo entre duas pessoas que apontavam para o mesmo sol e para o mesmo livro...

O tempo passou e meus planos agora possuíam uma alteração para incluí-la. Antes de iniciá-lo completamente, eu precisava descobrir se Elizabeth era de fato a pessoa que seria capaz de me aturar num local onde só eu e ela habitaria. E eu também precisava saber se o oposto era aceitável.

Foram 7 anos de viagens pelo Brasil até que encontramos a casa desejada, ficava no interior de Alagoas, tão longe que era preciso percorrer 127Km de estrada até chegar na casa que apelidamos de "A Casinha Solitária".

Compramos, reformamos e fomos morar lá.
A casa era enorme, com alpendre, quatro quartos, uma cozinha enorme com direito a fogão à lenha e panelas de barro.
Transformamos um dos quartos numa biblioteca. Mais de 6 mil livros para gastarmos nossa vida lendo e ainda não parecia suficiente.

Nossos dias eram quase todos iguais, ela e eu, livros e a natureza e a rotina, mesmo existindo, era prazerosa. Cheguei a conclusão de que as rotinas são inevitáveis e o que nos resta é apenas escolhê-las com cautela e, se necessário, escolher a pessoa ideal para executar a rotina juntos. Tudo indica que a rotina quando praticada com alguém interessante torna-se num aperfeiçoamento interpessoal e desejável. Não fujíamos das rotinas, pelo contrário, unificávamos nossas rotinas para que pudéssemos executar juntos.

Logo cedo ela acordava e ia se banhar no rio que passava bem no nosso quintal...
Eu ia até o alpendre da casa e ficava admirando aquela deusa nua, perfeita sobrevoando as águas doces da minha vida... Como não a encontrei antes? Onde eu estava quando aquela mulher incrível nasceu? Por onde estive que não senti falta de algo tão divino quanto ela?

Anos passaram-se e tudo parecia inabalável, seguindo como o planejado. Não tivemos a sorte de termos filhos, descobrimos que eu era incapaz, essa foi a primeira rasteira que a vida nos deu...
Não foi fácil superá-la, mas devido ao grande laço que tínhamos, a rasteira da vida não foi tão fatal como deveria ser.

A segunda rasteira aconteceu quando descobrimos que eu tinha uma doença rara no cérebro e tinha apenas alguns meses de vida... Não havia cura e eu não estava preocupado com isso. Sem chances, resolvi então rascunhar um pouco da nossa história relendo a obra de Augusto dos Anjos, o autor da morte que me deu a vida ao colocar Elizabeth em meu caminho.

Acredito que fomos tão felizes quanto esperávamos ser, usufruímos de cada minuto como se fosse o último, de cada beijo como se fosse o último, de cada abraço como se fosse o último...

Elizabeth era a mulher mais incrível que deus pôs neste mundo, não sei se ela sabe, mas a sua existência era incrível e maravilhosa e eu sentia-me grato diariamente por ter a chance de respirar o mesmo ar que ela, de dividir o mesmo endredom e a mesma cama com ela...

Hoje, dia 18 de setembro de 2029, internado na UTI depois de decretada morte cerebral, apenas aguardando a hora dos aparelhos serem desligado, penso em cada momento vivido com ela.

Às 15h de hoje, conforme eu havia solicitado ainda consciente, os aparelhos todos serão desligados. Não quero ser mantido por máquinas, elas não são capazes de me manter mais vivo do que os livros que deixei, do que as lembranças que gravei nas pessoas, principalmente em Elizabeth.

Não acredito em céus, inferno mas creio no paraíso.

E hoje sei que vivi bons anos no paraíso ao lado de Elizabeth, que com o rio São Francisco nos olhos hoje está sentada aqui, do meu lado... Seu semblante continua belo apesar de profundamente triste e pesadamente amargurado como se o peso do universo estivesse sob suas costas... Seus olhos transbordam rios de lágrimas, como o São Francisco ou Amazonas... Mas aquele brilho ainda estava lá...

Faltam 2 minutos para as 15h... O tic-tac do relógio acelera a correnteza dos rios nos olhos dela... Ela abre a bolsa e retira um quadro da nossa casinha, uma pintura do nosso mundo, onde gastamos nossas forças, energias e sabedoria... A nossa casinha solitária...

Eu não poderia ir sem isso.
Partirei para o nada, mas com a tranquilidade e a paz de ter vivido os melhores dias ao lado da mulher mais inspiradora e incrível que já existiu neste universo. E é disso que se trata a vida. Viver enquanto mortos até encontrarmo-nos em alguém que nos ressuscite, que nos devolva à vida... E foi isso que Elizabeth fez por mim. Um autêntico anjo dando fôlego de vida a um reles mortal!

São 14:59:55s...

Não tenho mais tempo para dizer que a amo, pois tal frase diminuiria tudo o que eu sinto por ela...

O sol está se apagando...
Os rios transbordam inundando as cidades sem que seus habitantes percebam...

E eu apenas...
15:00h...

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