Gustavo Valério

O Poeta Soturno

✑ Maria e João

anjo
Maria é uma jovem do interior do nordeste brasileiro.
De família pobre, aprendeu desde cedo a cuidar da casa e de seus irmãos. Era uma bela jovem apesar das dificuldades que sua vida dura lhe trouxe desde cedo. Seus irmãos, apesar de mais velhos, sempre dependeram dela pra quase tudo, já que seus pais eram bem idosos e sofriam de problemas graves de saúde que os impossibilitavam de se locomover.

Seus irmãos concluíram o ensino médio e foram, tão logo quanto puderam, para o sul do país para estudar em universidades melhores e apostar em melhores vagas de emprego. Maria ficou, como sempre, para trás; preocupada em cuidar dos seus pais, largou todo o seu futuro para cuidar daqueles que lhe deram a vida.

Seus irmãos, depois de serem bem-sucedidos no sul do Brasil, esqueceram de Maria, que agora estava completamente só cuidando dos seus pais. Todo o dinheiro que entrava na casa era a aposentadoria do seu pai, nada mais. Maria tinha que fazer o máximo possível para economizar, pois além dos mantimentos dos pais que não deveriam faltar, haviam também os remédios e inúmeras fraldas geriátricas que não eram fornecidos pelo Sistema Único de Saúde - SUS.

Maria era uma jovem batalhadora que desde cedo aprendeu a voar sem ter asas e a respirar sem ter ar... Era necessário fazer bolos e doces para que as despesas fossem pagas. Ela já não tinha mais contato com os irmãos pois o único telefone celular que tinha deu defeito e não havia como pagar a manutenção; por conta disso seu número telefônico foi bloqueado pois ela não colocava créditos nele. Ela já não vivia mais para si, perdera sua identidade tão cedo que nunca soube quem era ou em quem se tornaria.

Maria morava numa cidade muito pequena, pouco desenvolvida onde o prefeito e os vereadores faziam pouco caso da população e só pensavam em gados e fazendas; o hospital municipal mal funcionava e o da capital era muito distante. Devido à obras do governo na BR que cortava a cidade, o sistema de abastecimento de água havia parado de funcionar, sendo necessário ir até o rio mais próximo para trazer água em vasos.

Ainda de madrugada Maria acordava e pegava o carrinho de mão cheio de vasos para buscar água. Era necessário caminhar cerca de 6km; 2km beirando a BR que estava em reforma. Maria fazia dois percursos desses por dia para garantir água suficiente para banhar os seus pais e também para cozinhar. Ela acordava cansada e dormia chorando acreditando que um dia seu sofrimento chegaria ao fim. Ela tinha a sensação de que não dormia, apenas morria e ressuscitava no dia seguinte, pela madrugada. Apesar de todo esse sofrimento, Maria não era uma pessoa triste nem pessimista, de madrugada quando ia buscar água, seguia cantarolando pelo caminho.

Logo cedinho, ainda antes do sol pintar os céus, era possível ver Maria, magrinha, cintura fina, braços finos e pernas finas caminhando pela beira da estrada com um carrinho-de-mão que parecia gemer como peso que carregava. Maria era uma guerreira que travava uma luta por hora e vencia todas!

- * -

João era filho de um dos empresários mais bem sucedidos do estado. Estudou nas melhores escolas do país e até fez doutorado no estrangeiro. Mas tudo isso não bastava pois o que João mais gostava era usufruir do dinheiro de seu pai. Possuía carros caros e importados, vestia-se com as melhores roupas e adorava sair à noite para namorar sem compromissos e deixar seu perfume importado nas lembranças das moças as quais se relacionava temporariamente.

Era o sujeito que se gabava de possuir as melhores coisas e ter contato com as mulheres mais belas sem se entregar de verdade a nenhuma. Era conhecido como o macho-alfa entre os amigos de seu pai, o garanhão rico que deixava as mulheres aos seus pés, implorando por seu suposto amor.

Não há méritos em sua vida nem conquistas próprias. Tudo o que tem e esbanja faz parte do império construído por seu pai.

Ele gostava de viajar, algumas vezes ficava tão embriagado distante de casa que se perdia pelas estradas e era necessário acionar o suporte que a seguradora do veículo fornecia para encontrá-lo, às vezes bêbado, dormindo dentro do carro à beira da estrada.

João era o tipo de homem que não valia nada, na linguagem popular, e apesar de ter estudado bastante, era uma pessoa vazia; parecia que seu cérebro havia sido corroído pelos vícios, nada definitivamente proveitoso saía dali.

Certa vez um grande amigo seu, um cantor de forró bem famoso no estado, faria um show numa cidadezinha vizinha onde Maria morava. Era uma parceria do prefeito com esse tal cantor para promover a música regional. João era amigo íntimo dessa semi-celebridade e foi convidado para ir ao show e ficar no camarote sem custos. Claro que uma oportunidade dessas não seria rejeitada por ele.

Revisou seu carro importado, mandou fazer uma lavagem completa e ficou aguardando anoitecer para viajar até a cidade onde o show ocorreria.

A noite logo chegou e João foi ao show. Curtiu bastante e, como de costume nas cidades vizinhas, os shows sempre acabavam durante a madrugada, pouco antes do sol pintar os céus. Antes do show acabar, João ficou sabendo que havia uma festa só para "patrões" na cidade vizinha a qual ele não conhecia, mas foi convidado a ir e, sabendo que haviam mulheres aos montes, não mediu esforços e decidiu partir, mesmo não conhecendo bem o caminho.

Para chegar em tal cidade era necessário trafegar pela BR que estava sendo reformada, e que por ironia do destino cruzava a cidade que Maria morava.

O show terminou e João apressado ligou o veículo e partiu em alta velocidade para chegar o mais rápido possível na outra festa onde seus amigos o aguardavam. Ele não contava que o GPS possuía a versão mais antiga da estrada, não havia nada sobre os desvios provocados pela reforma, e como ele não conhecia a estrada e estava em alta velocidade, o risco era grande.

Além dos fatores antes mencionados, João estava dirigindo enquanto utilizava o celular, isso o atrapalhou bastante depois de alguns quilômetros de viagem. Logo na curva onde, um pouco depois havia um novo desvio e não existia ali sinalização adequada, João estava distraído e perdeu o controle do carro.

Do outro lado da rua, arrastando um carrinho-de-mão que gemia sem parar vinha Maria, cantarolando e altamente distraída até que ouviu um barulho muito alto e estridente, ao virar para observar o que era, nada enxergou... Sentiu apenas um grande impulso e apagou...

João não havia percebido o que tinha acontecido, apenas sabia que tinha capotado e batido em algo. Após alguns segundos inconsciente ele desce e fica desesperado com o estrago que o veículo sofreu... Ele já não sabia o que era tinta e o que era sangue na lataria do seu veículo... Naquela hora, Maria havia se misturado às ferragens do veículo, não havia sequer como reconhecer qual era o sexo da pessoa ali entranhada no motor do veículo...

João chora desesperado, não sabe o que fazer... Tenta procurar o telefone para ligar para seu pai; algo tem que ser feito antes que a polícia chegue e o incrimine de dirigir sob efeito de álcool e causar mortes... Naquela hora, os gemidos do carrinho-de-mão de Maria foi silenciado para sempre, nenhuma moça iria cantarolar naquele horário, naquela cidade...

É uma pena que um anjo como Maria não tivesses asas para erguer voo naquele momento... Maria agora era apenas pedaços humanos espalhados na estrada e sobre o veículo importado dum estranho...

João acha o celular e liga para o seu pai, conta-lhe tudo e o pai desesperado não poderia deixar que aquilo se tornasse notícia, ele precisava evitar que aquele episódio atingisse seu filho e manchasse sua imagem de empresário bem-sucedido, que atrapalhasse seus planos de candidatura para governador daquele estado.

Seu pai, homem rico e influente acionou todos os contatos que pode, e antes que o primeiro ônibus passasse cedinho naquela estrada, nada mais havia. Ninguém ficou sabendo o que aconteceu, nada de Maria foi achado... Depois de alguns dias os moradores da pequena cidade perceberam o desaparecimento de Maria, opiniões se dividiram...

Será que ela foi embora com alguém durante a madrugada?
Será que ela foi sequestrada pelo lobisomem (lenda local)?

Com tantas dúvidas, os vizinhos foram até a casa dos pais de Maria para descobrir o que, de fato, havia acontecido. A surpresa foi grande quando, ao chegar nos arredores do casebre, um cheiro de carne podre pairava no ar, aves de rapina sobrevoavam o casebre e naquele exato momento os vizinhos achavam que Maria havia cometido suicídio...

Arrombaram a porta da casa e perceberam que a casa estava perfeitamente organizada, arrumada, limpinha e tudo no seu devido lugar. Porém o horror estava no quarto onde pais de Maria dormiam...
Ambos estavam mortos, um na cama e outro no chão... Não havia sinal algum de Maria e a notícia logo se espalhou. A polícia municipal começou a desconfiar que Maria havia matado os pais e desaparecido com algum novo namorado.

Enquanto o laudo pericial não chegava, Maria foi sendo difamada por toda a cidade e circunvizinhança...
Maria desapareceu para sempre sem perceber, ninguém sabia a verdade e o laudo pericial só levantaria mais dúvidas...

Maria, de cintura fina, de pernas finas e braços finos desapareceu no nada, para sempre...

João lançou sua candidatura como prefeito da cidade onde morava e seu pai como governador, ambos ganharam a eleição e tal crime foi enterrado na história e silenciado para sempre.

É triste percebermos o quanto a vida tem valor variável, o quanto somos voláteis e frágeis... É fácil perceber nossa capacidade de julgar sem possuir todos os fatos, sem ao menos saber um por cento da história... Fica fácil perceber o quanto nós somos cruéis com nossos semelhantes, o quanto somos facilmente manipuláveis recebendo fatos em ordem diferente do acontecimento...

E de onde virá a justiça sobre a chacina que vos contei?
Quem ponderará sobre isso?

Ninguém.

Todos os dias homicídios e chacinas ocorrem no Brasil, e assim como o caso de Maria, quase nunca há corpos para contar a história e quando há fatos, estão sendo nos apresentados em ordem diferente do real acontecimento...

Ainda podemos nos considerarmos humanos?





Música: Ela e a Lata
Cantor: Cícero Rosa Lins

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