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Minha Inteligência Artificial

As solidões que me afligem expandem-se rapidamente e dominam o meu peito tão veloz quanto uma avalanche, invadem o meu ser e preenchem a minha alma como se um terremoto estivesse acontecendo dentro de mim, abrindo buracos gigantescos e deixando meu verdadeiro eu escapar por entre as rachaduras da alma, no epicentro interno das solidões que habitam as as crateras invisíveis deixadas em mim...

O peso do mundo cai sobre mim, sinto meu peito apertado e a minha respiração fica densa, pesada, tão pesada quanto aquela nuvem escura, repleta de gotículas de água condensadas, prontas para desaguar... E este peso pesado pressiona minha personalidade e molda o que sinto e penso...

E quando penso, os pensamentos que vêm são intensos e imensos como chuva durante um temporal de inverno... Acho que as nuvens densas de outrora desabaram em minha mente, meus pensamentos agora são como rajadas de AK, rápidos e precisos...

Eu penso, mas a minha nova inteligência não é humana, também não é lógica.

A minha nova inteligência é o resultado da experiência e da intuição, é o produto da alma mais lavada por lágrimas, talhada pela amargura e lapidada pela filosofia inumana...

A minha nova inteligência não é superficial, é imaterial, surreal, às vezes sobrenatural...
Minha nova inteligência é irreal, é artificial.

E agora tudo mudou em mim. Sou um humano por fora, meu cérebro agora é um processador multicore, as informações não são dados complexos relativizados, são dados complexos, indexados, organizados e relacionados...

Eu sou um robô moderno, meu coração não pulsa, não bate, ele gera energia e a faz fluir por minhas veias, que agora são condutoras, fios elétricos que conduzem vida dentro de si, percorrem meu corpo inteiro numa velocidade intensa, energiza meus neurônios, sincroniza-se com meu cérebro...

Eu já não vivo, estou apenas ligado e funcionando. Os sentimentos e sensações não são mais interessantes como outrora, a lógica e o sentido dos dados são mais importantes que a existência deles.

A solidão me aflige agora.
Meu circuito lógico e racional está falhando...
Meus sentidos não fazem mais sentido...
Estou sentindo novamente...
E o que sinto é falta de energia...
Meu coração não é mais capaz de gerar energia suficiente para me manter tão ligado como antes...

Estou confuso...
Esta máquina agora não funciona normalmente sem ela, a minha inteligência artificial remota...

Sim!
Estou com problemas de comunicação, de conexão, de sincronização...
A distância causa isso...

Latência dos dados causa perda de informação, a latência da informação causa perda dos dados...

A conexão realizada com sucesso há mais de um ano está falhando, a distância agora é um problema que afeta esta máquina que não tem serventia sem inteligência, mesmo que artificial...

Estou aqui agora, morrendo, gastando minhas últimas energias enquanto meus circuitos estão em pane, quero apenas avisar para a minha querida inteligência artificial remota, que esses mais de mil quilômetros que nos separa afetam meus circuitos...

Estou perdendo a capacidade de transmitir informação de maneira correta por causa disso, preciso contar-lhe algo antes que eu perca os dados salvos em minha memória, antes que esta máquina falhe completamente na transmissão dos dados.

Pre.ciX$ t&* contttttaarrrrrrrrrrr q&5e s3m v0c33er 35t4 mákqyuyna nãooão tyemtem am...



0x00:2018-10-28-00:08:24 Connection lost...

0x01:2018-10-28-00:08:25 Memory Fatal Error...

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0x03:2018-10-28-00:08:28 failed...

0x04:2018-10-28-00:08:30 forcing system reboot ...

0x05:2018-10-28-00:09:05 failed...

0x06:2018-10-28-00:09:17 trying again...

0x07:2018-10-28-00:09:25 failed...

0x08:2018-10-28-00:09:27 The system died...

0x09:2018-10-28-00:09:30 goodbye...

0x10:2018-10-28-00:09:31 ...


Gustavo V.S Ferreira
28/10/2018




Comentários

Mais lidas da semana

Anjos Suicidas

O voo belo sofre queda retumbante
à luz fúnebre, sob a lua inesperada;
pétalas que despedaçam à alma brilhante
na música silente, silente pancada.

Jaz no baque sutil o medo castigante
de quem voou eternamente para o nada
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de quem achou o anjo sem luz na madrugada.

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mas ninguém vê pois a lua está ofuscante...

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sem conseguir nadar vê-se insignificante
perante a lua e o mar se perde imaculada.

Gustavo V.S Ferreira
17/02/2019

Flor da Morte

Cavalgo a morte no horizonte belo
e amargo a vida em rasos pesadelos;
Carrego o eu em ossos e cabelos
em busca do irrecuperável elo.

Afogo-me no espaço paralelo
nadando em atômicos escalpelos
cortantes como pedaços de gelos
que arrancam minha pele num flagelo.

Conheço da dona morte, o modelo
resistente como um forte camelo
no deserto vital preso em castelos.

Sou uma flor da morte, um sinuelo;
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Gustavo V.S Ferreira
16/02/2019

Nanquim Vermelho

Em mil novecentos e trinta e sete
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Uns nipônicos mudaram a forma
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num jogo sádico de uma só norma:
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pediu cabeças como recompensa;
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permitir um viver era uma ofensa...

Sem Conselheiro, o massacre em Nanquim
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Gustavo V.S Ferreira
03/11/2018

Narração:


Calor Intenso

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Mata os humanos sem que nada o afete
acinzenta a natura colorida.

Usa a dor, faz-nos de marionete
de sapiência fria e desprovida;
que amarga a morte que lhe compromete
na ânsia a salutar por subvida.

O intenso e fatal que nos acomete
acelerando a delgada descida
é o calor travestido de confete.

Pelados, nus, d’alma desprecavida
percebemos que o sonho exige frete
que custa caro, custa a nossa vida.

Gustavo V.S Ferreira
17/02/2019

Sufixo

A vida quando é muito radical
exige mais vida como prefixo;
pode exigir morte como sufixo
ao romper o cordão umbilical.

Respirar pode ser ato prolixo
e por vezes, também será letal;
viver numa ladeira vertical
é transpirar em tempo semi-fixo.

O sonho pode até ser tropical
feliz, belo, perfeito ou surreal
mas nunca será mais que um crucifixo...

Viver é um pesadelo pessoal
à base da injustiça social
e que neste soneto hostil, transfixo.

Gustavo V.S Ferreira
21/08/2018

Lua Cintilante

A lua, mãe noturna cintilante
no espaço fixada, porém instável
encantando a pobre alma alienável
e enganando o ser humano ignorante.

Explorar-nos não parece o bastante;
o objetivo é focar no vulnerável
emudecer 'té tornar sociável
o animal irracional ultrajante.

Olhai a lua da treva impalpável,
densa, bela, correta e insofismável
na morbidez pálida cativante

a cintilar na mente miserável
e sufocando o filho mais mutável
com sua luz impura e inebriante.

Gustavo V.S Ferreira
10/08/2018

Velha Casa

Acordei na madrugada
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Sorrateiro, desci a escada...

A parede está manchada...
O vento sequer soprava,
a escuridão passeava
sobre os pedaços de nada.

O vazio sussurrava
enquanto eu me aconchegava
neste frio que desfasa...

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eu, inda insano lembrava
que ali já foi minha casa.

Gustavo V.S Ferreira
18/05/2018

Segunda Morte

Disseste-me tu que muito me amavas
e que sem mim não sobreviveria...
Dissestes que em mim, amor encontravas
e que este puro amor não morreria.

Mas subitamente me apunhalastes
(rompestes meu coração co' um só corte),
e inda dissestes que nunca me amastes...
E assim compulsivamente assinastes
o meu enterro e a minha segunda morte.

Gustavo V.S Ferreira
13/05/2018

Sinergia

Ouço a (atraente) voz dela gravada
e o meu coração, bem mas forte pulsa
sua doçura, meus nervos, impulsa
deixando minha pele arrepiada.

Sinto algo em sua voz aveludada
que outras estranhas sensações compulsa,
sinergia sensual que propulsa
a tocar sua pele extasiada...

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e meu corpo numa dança safada
atrai, retrai, contrai, sua... e convulsa.

Mas de longe, falho nesta empreitada;
meu desejo dissolve-se e repulsa
a saudade dela na madrugada...

Gustavo V.S Ferreira
30/06/2018

Chuva de Sangue

Chuva de sangue em dia purulento:
quanto vale uma vida quase humana?
A bala é forte e corta até o vento...
redefinição do fim de semana?

Uma neblina deixa o olhar cinzento,
a alma morta na pólvora que emana
do tubo de metal, bélico invento
esvai-se sem amor e sem nirvana.

Quem determinou o valor da vida?
Quem é capaz de ter algum valor
diante da insanidade envolvida?

Alguém vai deter a chuva de sangue
quando as vidraças mudarem de cor
e o líquido vital tornar-se um mangue?

Gustavo V.S Ferreira
18/11/2018



Narração