Gustavo Valério

O Poeta Soturno

✑ Minha Humanidade

homem segurando o próprio rosto
Certo dia minha mente entrou em colapso,  algo em mim havia despertado e junto com isso veio um turbilhão de pensamentos e ideias novas.

Eu deveria ter mais ou menos uns 25 anos de nascido quando isso ocorreu, foi a minha primeira morte. Nesse dia, um novo eu nasceu dentro dessa casca humana que sou.

Percebi que estava um pouco mais frio, indiferente. Tornei-me menos ativo em minha família, evitava contato com amigos e parentes... Começaram a me criticar, fui chamado de hipócrita e de egoísta. Eu sabia que não era isso, acabei percebendo também que não deveria mais me importar com a opinião alheia, que a maioria de tais opiniões eram totalmente descartáveis.

Não me importando mais com a opinião alheia, meus ciclos de amizade reduziram-se, poucos parentes gostavam da minha presença, poucas pessoas gostavam de conversar comigo pois temiam qualquer tipo de oposição de ideias que eu apresentasse; percebendo isso, vi que se opor às ideias das pessoas era muito bom para a saúde de um diálogo, para melhorar o entendimento das coisas e apurar os argumentos.

Adotei como padrão. Sempre que alguém me apresentava ideias e argumentos sobre algo, eu procurava informar-me sobre (internet ajuda) e oferecer oposição de ideias e apresentar contra-argumentos. Algumas pessoas passaram a apreciar os diálogos comigo por conta disso, porém a maioria começou a me evitar, tendo como motivo o fato de que eu sempre era "do contra".

Assim perdi quase todos os amigos que haviam restado; de fato, dava pra contar "nos dedos" as pessoas que realmente curtiam um diálogo comigo; percebi que os outros que sempre me chamavam de amigo, que me chamavam de irmão tinham afastado-se abruptamente de mim, fingiam até que não me conheciam quando, por acaso, passávamos pelo mesmo caminho. Essa foi a minha segunda morte.

Não o bastante, minha frieza praticamente triplicou, eu já não fazia mais questão por quase nada, não fazia questão de conversar com ninguém. Meu computador e meus livros passaram a ser meus melhores amigos, travei os melhores diálogos da minha vida comigo mesmo, oferecendo argumentos e contra-argumentos, ideias e oposição delas apenas baseando-me em livros e textos lidos na internet. Eu havia amadurecido bastante, pois ao ler livros de autores distintos, com ideias distintas, passei a aprimorar meu raciocínio. Minhas ideias agora já não eram tão firmes, já não eram cheias de certezas...

Nessa nova fase, meus pensamentos agora eram dúbios, duvidar passou a ser meu novo padrão, e ao invés de apresentar contra-argumentos e oposição de ideias, passei a questionar os argumentos colocando em dúvida a veracidade deles, não havendo possibilidade de colocar em dúvida, passei a oferecer uma pequena oposição... Dos poucos amigos que gostavam de conversar comigo, apenas um restou.

Automaticamente tornou-se em meu melhor amigo; um livro humano o qual eu consultava regularmente. Conversávamos o tempo todo, sempre que eram possível, enfim...

Nós dois estávamos descobrindo coisas novas, aprendendo a concordar com as coisas somente depois de duvidar e se opor. Tanto ele quanto eu estávamos tendo ideias novas e um amadurecimento incrível para a nossa idade.

As pessoas quando conversavam com um de nós, notavam o amadurecimento no diálogo, e sempre afirmavam que éramos filósofos por conta disso.

De fato, se pensar fora da caixa, colocar em dúvida argumentos apresentados mesmo quando concordamos com ele, oferecer oposição a ideias, mesmo que sejam nossas, se isso for considerado algo de filósofo, então temo a acreditar que nossa sociedade não está apenas em decadência, ela está mais humana que antes, e sendo mais humana, acaba por si só entrar na decadência psicológica e racional que estamos fadados a ter, e sendo assim, tão humanos, acabamos afundando-nos no paradoxo da nossa reles existência, pois quanto mais humanos nos tornamos, menos humanos parecemos ser.

Enfim...

Eu agora tinha um amigo que discordava de mim  na maioria das coisas, mas nossa discordância era saudável, racional e sempre nos levava a um terceiro ou quarto raciocínio, onde poderíamos concordar parcialmente ou totalmente, até mesmo discordar parcialmente ou totalmente...

Era uma amizade tão forte, que nem parecíamos mais pessoas comuns, nossas conversas tinham uma excelência e um linguajar que a maioria das pessoas sequer compreendiam, nossos argumentos e linhas de raciocínio iam tão longe, que era mais fácil acreditar que éramos loucos.

Certo dia, meu amigo e eu estávamos dialogando sobre como nós, seres humanos, deveríamos evitar a busca incessante pela humanidade, pois essa busca nos tornaria num lado mais animal do que racional. Não concordei totalmente com isso e apresentei uma certa oposição.

Não acredito que nos tornar desumanos quando tentamos ser humano seja totalmente ruim, faz parte da natureza. A humanidade filosófica, ao meu ver, não deve estar atrelada a humanidade real dos seres racionais. Os racionais são humanos e a sua humanidade pode ser perdida, adquirida e até mesmo aperfeiçoada levando em consideração a filosofia, ciência e conhecimentos adquiridos na nossa vivência animal.

Mas meu amigo não achava que a minha discordância era racional, ele disse que quanto mais humanos somos, e quanto maior a nossa busca por essa humanidade ancestral, maior será a nossa ignorância e consequentemente maior será a nossa frieza para com os outros, assim, chegaríamos a um ponto de que seríamos tão humanos que a racionalidade não seria mais necessária, nossos sentimentos e pressentimentos dominariam-nos e isso seria terrível. Seríamos mais emocionais que racionais.

Eu concordava parcialmente com isso, mas acreditava que ele não estava levando fatores sociais e psicológicos em consideração, e minha insistência nisso o fez ficar arrogante e violento.

Ele me agrediu, eu cai e bati com a cabeça no espelho, um grande espelho que eu tinha na parede do quarto...

O espelho se despedaçou...

Ele totalmente descontrolado pegou um pedaço do espelho e cortou a minha garganta enquanto perguntava:

- O que mais você pode argumentar agora?

Com a garganta sangrando como uma cachoeira triste, que desce pela ribanceira à noite sem ter sequer uma lua para contemplar, chorei intensamente, enquanto minha voz não conseguia ser emitida... Ao tentar falar, minha voz ecoava por dentro da minha cabeça, mas nada era pronunciado, exceto umas gotículas de sangue que atingiram o espelho e me fez perceber a realidade...

Sangrando feito uma nuvem solitária no céu que chove intensamente durante um inverno sombrio, eu havia percebido que ele era eu, e que eu não tinha mais amigo...

Percebi que, sozinho no meu quarto, eu havia duplamente me tornado um ser estranho e louco, eu havia travado uma guerra ideológica contra mim mesmo...

E onde isso me levou?

Descobrir isso, fez-me chegar onde cheguei.
Escrevi esta carta ainda, na certeza de que os humanos pudessem entender que...

...

...

Essa é minha terceira morte...



Maceió, 20 de Outubro de 2018

Gustavo V.S Ferreira

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