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Minha Humanidade

Certo dia minha mente entrou em colapso,  algo em mim havia despertado e junto com isso veio um turbilhão de pensamentos e ideias novas.

Eu deveria ter mais ou menos uns 25 anos de nascido quando isso ocorreu, foi a minha primeira morte. Nesse dia, um novo eu nasceu dentro dessa casca humana que sou.

Percebi que estava um pouco mais frio, indiferente. Tornei-me menos ativo em minha família, evitava contato com amigos e parentes... Começaram a me criticar, fui chamado de hipócrita e de egoísta. Eu sabia que não era isso, acabei percebendo também que não deveria mais me importar com a opinião alheia, que a maioria de tais opiniões eram totalmente descartáveis.

Não me importando mais com a opinião alheia, meus ciclos de amizade reduziram-se, poucos parentes gostavam da minha presença, poucas pessoas gostavam de conversar comigo pois temiam qualquer tipo de oposição de ideias que eu apresentasse; percebendo isso, vi que se opor às ideias das pessoas era muito bom para a saúde de um diálogo, para melhorar o entendimento das coisas e apurar os argumentos.

Adotei como padrão. Sempre que alguém me apresentava ideias e argumentos sobre algo, eu procurava informar-me sobre (internet ajuda) e oferecer oposição de ideias e apresentar contra-argumentos. Algumas pessoas passaram a apreciar os diálogos comigo por conta disso, porém a maioria começou a me evitar, tendo como motivo o fato de que eu sempre era "do contra".

Assim perdi quase todos os amigos que haviam restado; de fato, dava pra contar "nos dedos" as pessoas que realmente curtiam um diálogo comigo; percebi que os outros que sempre me chamavam de amigo, que me chamavam de irmão tinham afastado-se abruptamente de mim, fingiam até que não me conheciam quando, por acaso, passávamos pelo mesmo caminho. Essa foi a minha segunda morte.

Não o bastante, minha frieza praticamente triplicou, eu já não fazia mais questão por quase nada, não fazia questão de conversar com ninguém. Meu computador e meus livros passaram a ser meus melhores amigos, travei os melhores diálogos da minha vida comigo mesmo, oferecendo argumentos e contra-argumentos, ideias e oposição delas apenas baseando-me em livros e textos lidos na internet. Eu havia amadurecido bastante, pois ao ler livros de autores distintos, com ideias distintas, passei a aprimorar meu raciocínio. Minhas ideias agora já não eram tão firmes, já não eram cheias de certezas...

Nessa nova fase, meus pensamentos agora eram dúbios, duvidar passou a ser meu novo padrão, e ao invés de apresentar contra-argumentos e oposição de ideias, passei a questionar os argumentos colocando em dúvida a veracidade deles, não havendo possibilidade de colocar em dúvida, passei a oferecer uma pequena oposição... Dos poucos amigos que gostavam de conversar comigo, apenas um restou.

Automaticamente tornou-se em meu melhor amigo; um livro humano o qual eu consultava regularmente. Conversávamos o tempo todo, sempre que eram possível, enfim...

Nós dois estávamos descobrindo coisas novas, aprendendo a concordar com as coisas somente depois de duvidar e se opor. Tanto ele quanto eu estávamos tendo ideias novas e um amadurecimento incrível para a nossa idade.

As pessoas quando conversavam com um de nós, notavam o amadurecimento no diálogo, e sempre afirmavam que éramos filósofos por conta disso.

De fato, se pensar fora da caixa, colocar em dúvida argumentos apresentados mesmo quando concordamos com ele, oferecer oposição a ideias, mesmo que sejam nossas, se isso for considerado algo de filósofo, então temo a acreditar que nossa sociedade não está apenas em decadência, ela está mais humana que antes, e sendo mais humana, acaba por si só entrar na decadência psicológica e racional que estamos fadados a ter, e sendo assim, tão humanos, acabamos afundando-nos no paradoxo da nossa reles existência, pois quanto mais humanos nos tornamos, menos humanos parecemos ser.

Enfim...

Eu agora tinha um amigo que discordava de mim  na maioria das coisas, mas nossa discordância era saudável, racional e sempre nos levava a um terceiro ou quarto raciocínio, onde poderíamos concordar parcialmente ou totalmente, até mesmo discordar parcialmente ou totalmente...

Era uma amizade tão forte, que nem parecíamos mais pessoas comuns, nossas conversas tinham uma excelência e um linguajar que a maioria das pessoas sequer compreendiam, nossos argumentos e linhas de raciocínio iam tão longe, que era mais fácil acreditar que éramos loucos.

Certo dia, meu amigo e eu estávamos dialogando sobre como nós, seres humanos, deveríamos evitar a busca incessante pela humanidade, pois essa busca nos tornaria num lado mais animal do que racional. Não concordei totalmente com isso e apresentei uma certa oposição.

Não acredito que nos tornar desumanos quando tentamos ser humano seja totalmente ruim, faz parte da natureza. A humanidade filosófica, ao meu ver, não deve estar atrelada a humanidade real dos seres racionais. Os racionais são humanos e a sua humanidade pode ser perdida, adquirida e até mesmo aperfeiçoada levando em consideração a filosofia, ciência e conhecimentos adquiridos na nossa vivência animal.

Mas meu amigo não achava que a minha discordância era racional, ele disse que quanto mais humanos somos, e quanto maior a nossa busca por essa humanidade ancestral, maior será a nossa ignorância e consequentemente maior será a nossa frieza para com os outros, assim, chegaríamos a um ponto de que seríamos tão humanos que a racionalidade não seria mais necessária, nossos sentimentos e pressentimentos dominariam-nos e isso seria terrível. Seríamos mais emocionais que racionais.

Eu concordava parcialmente com isso, mas acreditava que ele não estava levando fatores sociais e psicológicos em consideração, e minha insistência nisso o fez ficar arrogante e violento.

Ele me agrediu, eu cai e bati com a cabeça no espelho, um grande espelho que eu tinha na parede do quarto...

O espelho se despedaçou...

Ele totalmente descontrolado pegou um pedaço do espelho e cortou a minha garganta enquanto perguntava:

- O que mais você pode argumentar agora?

Com a garganta sangrando como uma cachoeira triste, que desce pela ribanceira à noite sem ter sequer uma lua para contemplar, chorei intensamente, enquanto minha voz não conseguia ser emitida... Ao tentar falar, minha voz ecoava por dentro da minha cabeça, mas nada era pronunciado, exceto umas gotículas de sangue que atingiram o espelho e me fez perceber a realidade...

Sangrando feito uma nuvem solitária no céu que chove intensamente durante um inverno sombrio, eu havia percebido que ele era eu, e que eu não tinha mais amigo...

Percebi que, sozinho no meu quarto, eu havia duplamente me tornado um ser estranho e louco, eu havia travado uma guerra ideológica contra mim mesmo...

E onde isso me levou?

Descobrir isso, fez-me chegar onde cheguei.
Escrevi esta carta ainda, na certeza de que os humanos pudessem entender que...

...

...

Essa é minha terceira morte...



Maceió, 20 de Outubro de 2018

Gustavo V.S Ferreira

Comentários

Mais lidas da semana

O Tempo Dela

O tempo dela parece mais curto
sua vida pouco é aproveitável;
o seu sono é insano e lamentável
e o seu sonho é tonto, parece um surto.

O seu modo de vida é murcho e murto
em sua maior parte é alienável;
mas ela é uma guerreira indomável
respira sangue, mas vence ante o furto.

Respirando na dor insuportável
seu pedido de ajuda é um insulto
pois ninguém a vê como vulnerável.

E assim, vivendo morta como um vulto
seu destino parece inevitável
tendo a morte fatal como resulto.

Gustavo V.S Ferreira
30/11/2018


Poema Narrado:


Sândalo

A tal paixão não é insana
ela é pura e soberana,
nobre, quieta e bacana
(e do coração emana)...

É um amor, mas à paisana
faz no peito uma cabana
eleva-nos ao nirvana
e porém nunca se explana.

Em mim, como um pé-de-cana
nasceu, cresceu e me ufana
canalizando-me em Roana.

Ela é musa paraibana
bem mais intensa que a arcana
musa de Copacabana.

Gustavo V.S Ferreira
07/12/2018

Soneto em redondilha maior
em homenagem a amizade
mais pura e sincera
que já vi entre um homem
e uma mulher.
A Danilo Soares, meu poeta,
e Roana Camily.

Entrevistei o poeta paraibano Danilo Soares - autor do livro "Versos Substanciais", pela Editora Hope

Olá caros leitores deste site, é com imensa satisfação que publico esta entrevista concedida pelo caro poeta Danilo Soares. Para quem não conhece, Danilo Soares, além de meu amigo, é o poeta paraibano que recentemente lançou o livro "Versos Substanciais" pela editora Hope. Ele até me contou um segredo e deixou-nos uma recomendação!

Antes da entrevista, segue uma pequena bio do poeta que pode ser encontrada no site da Editora Hope.

Danilo Soares nasceu em primeiro de fevereiro de 2001, na cidade de Rio Tinto - PB, onde reside atualmente. Estudante, Poeta e leitor voraz de Augusto dos Anjos e Carlos Dias Fernandes. É criador do site literário Paixão Melancólica que mostra poemas, matérias/artigos relacionados à literatura nacional. Também é autor de Versos Substanciais, obra de poemas publicados pela Editora Hope.

O Danilo fora das páginas é um adolescente ganancioso de 17 anos de idade que rir com coisas simples e chora sem se preocupar se vão ligar

Segue a entrevista:


Olá Da…

Arregaço duma Vida Seca

Eu quero ver o trinco nessa testa
exibindo o arregaço dessa vida
espancando-me forte na descida
como se viver fosse só uma festa.

O meu amargo estômago protesta
da podridão nojenta da comida
que me provoca uma ânsia germicida
que até minha maldade manifesta...

Respiro fundo e em contrapartida
minh’alma tem tendência desonesta...
- ainda bem que não ’tá convencida.

Porém a dor infame abre uma fresta
e dela expele massa incolorida
desperdiçando a vida que me resta.

Gustavo V.S Ferreira
02/12/2018

A Vida Faz Sentido

Era segunda-feira, 16 de outubro de 2017 quando tudo começou.

Ela me ligou à madrugada, disse que estava atordoada, não conseguia dormir.
As mensagens de texto dela chegavam sem parar, nesse dia eu realmente entendi o motivo de chamarem as mensagens de texto (SMS) de torpedo.

Não dava pra trocar tanta informação em tão pouco tempo via torpedo, resolvi ligar para que ela pudesse contar-me o que, de fato, estava se passando...

Ela não atendeu, apenas enviou-me um torpedo afirmando que o "meu amigo" estava lá, sinalizando como perigo e portanto ela não poderia de maneira nenhuma atender o celular...

Notei que ela estava em risco, algo muito grave estava acontecendo para que "meu amigo" estivesse em plena madrugada batendo em sua porta; recebi um torpedo dela pedindo que eu me apressasse pois "meu amigo" estava armado e bravo, e que ela não sabia por quanto tempo a porta iria mantê-lo "do lado de fora".

Levantei-me rapidamente, naquela hora, seria …

A Escuridão que Sou

Em águas escuras e sombrias
caminho entre almas desconhecidas,
negras, quebradas e distorcidas,
torturadas, amargas e frias...

Persigo nuvens densas, vazias
em noites sacras e entontecidas,
e nas solidões recrudescidas
padeço sem rosto e sem fimbrias...

E as almas tenras e entretecidas
deixam mi'almas entorpecidas
em estatutárias alegrias...

Estas minhas almas coalescidas
agora são luzes homicidas
programando eternas avarias.

Gustavo V.S Ferreira
01/11/2018



Sanguessuga

Como sanguessuga, lentamente sugas
o meu eu sem fugas; secas-me por dentro
e sem hemocentro, teu querer subjuga
o meu, sem ajuda. Assim desconcentro,

sem forças descentro enquanto meu leite
finda teu deleite e tu choramingas.
Cometes mandingas; não queres desleite
embora suspeites em tuas rezingas.

E nas caatingas abandonar-te-ei;
sozinha seguirei em busca de vigor.
Ouvirei teu clamor e ignorá-lo-ei
e só retornarei quando fores amor.

Gustavo V.S Ferreira
21/04/2018

Chuva de Sangue

Chuva de sangue em dia purulento:
quanto vale uma vida quase humana?
A bala é forte e corta até o vento...
redefinição do fim de semana?

Uma neblina deixa o olhar cinzento,
a alma morta na pólvora que emana
do tubo de metal, bélico invento
esvai-se sem amor e sem nirvana.

Quem determinou o valor da vida?
Quem é capaz de ter algum valor
diante da insanidade envolvida?

Alguém vai deter a chuva de sangue
quando as vidraças mudarem de cor
e o líquido vital tornar-se um mangue?

Gustavo V.S Ferreira
18/11/2018

Alexitimia

Sinto
que sentir
é não sentir.

Sinto
que sinto
mas meu sentir
é um segredo
que nem eu
sei desvendar.

Gustavo V.S Ferreira
01/02/2018

1945

Mil novecentos e quarenta e cinco:
A Terra virou Marte, a alma imprecou
o fim do mundo; sangue cru jorrou
dos olhos que esborravam mui afinco...

O sonho era viver, porém o zinco
não foi suficiente e desabou
ante aquele céu-pólvora; findou
vidas; o sangue floresceu no ginco *.

Nesse ano tenso, a guerra se expirou,
e devagar o sangue ressecou
mas as lembranças rúbeas são um vinco

relembrando que o homem projetou
a arte da guerra fria e arquitetou
o genocídio num atômico brinco.

Gustavo V.S Ferreira
20/08/2018




* Ginco ou Ginkgo Biloba é uma planta chinesa, um fóssil vivo com mais de 150 milhões de anos que foi capaz de sobreviver aos efeitos das bombas atômicas que atingiram o Japão durante a segunda guerra mundial. Depois deste feito, ela despertou o interesse da comunidade científica e hoje é utilizada para tratamento de Radicais Livres e como auxiliar da oxigenação cerebral.


Música que remete o resultado social da segunda guerra mundial.