Gustavo Valério

O Poeta Soturno

✑ Hoje não tem Poesia

homem 
preocupado com as mãos na cabeça em frente ao notebook
Hoje não tem poesia
pois ela morreu aqui.
Hoje não tem alegria
pois eu, mui triste, caí.

✑ Messalina

coliseu de roma
A podridão do mundo me sufoca,
a corrupção é só carnificina
e também é falta de disciplina
que gradativamente me provoca.

✑ O Poeta da Morte

estatua de homem de sobretudo e chapeu
O poeta renasceu
de Alagoas pro Brasil
numa reação sombria;
ninguém soube, ninguém viu
que o poeta sucumbiu
para fazer poesia.

✑ A Morte e o Poeta

Foi na terra de Alagoas
terra fértil, merecida
nasceu um sem alegria
quase morto em fraca vida
seu choro, sua partida
foi um grito em poesia.

✑ Só o Amor Pode nos Salvar

pessoa presa numa bolha de sabão
Tão cedo decidi fugir de casa
e fui à procura do meu lugar;
respirando pânico ao invés de ar
o medo pôs meu coração em brasa.

✑ Amor

sabonete em forma de coração
O meu caro amor caiu do cavalo
e foi atropelado pelo tempo;
Morreu e desfez-se no contratempo
dessa vida e escorregou pelo ralo.

✑ Uma Espera

sapatinhos de bebe sobre a barriga de gestante
Temporal na primavera:
viver é ato suicida
porém em contrapartida
tem excelente atmosfera.

✑ Como Pode?

pé gigante esmagando humano
Como pode sentir dor
alguém tão forte e saudável?
Como pode um robô-mor
ser doce, meigo e amável?

✑ Achismo

homem empurrando pedra gigante e subindo montanha
Na neblina, o saber é imaginário
promove o asco, o verme relutante
na acidez cavernosa repugnante
do cérebro aprendiz hereditário...

✑ Sufixo

centenas de cadeados
A vida quando é muito radical
exige mais vida como prefixo;
pode exigir morte como sufixo
ao romper o cordão umbilical.

✑ 1945

crucifixo com capacete de soldado num campo de batalha
Mil novecentos e quarenta e cinco:
A Terra virou Marte, a alma imprecou
o fim do mundo; sangue cru jorrou
dos olhos que esborravam mui afinco...

✑ Buracos n’Alma

capacete de soldado completamente perfurado com tiros
Sessenta milhões - custo famulento;
um valor médio de buracos n’alma,
é número assombroso, um grande trauma;
de várias nações, é sonho sangrento.

✑ Assassina Fria

lua com sombra interna em forma de caveira
Lasso, adormeci co' a janela aberta;
corpo pesado, a cama me atraía...
Nem deu tempo de escrever poesia
tampouco de me enrolar na coberta.

✑ Poema Poético?

Enganados pela pareidolia
também de quase tudo que é estético;
ignorantes quanto ao mundo sintético
pois noss'alma tem paraparesia.

✑ Cachoeira Venenosa

cachoeira que mina de dentro dum caracol gigante
Cachoeira venenosa:
os meus olhos têm veneno
meu linguajar é ameno
minha morte é gloriosa.

✑ O Cimo

monte Everest
O cimo celeste silencia o sino
em síntese sacra e silenciosa
sanciona sonhos na viciosa
noute suscetível ao vil destino

✑ Quebrado

avião despedaçado
O sonho doce que se foi é santo
antecedeu a morte desejada
reconstruiu a longa e velha estrada
montou acordes do mais triste canto.

✑ Aliter[ação]

espectro sonoro
No velejar da vida o ar que viaja
vai viajando em fúnebres veículos
vagando a respirar tristes currículos
vendo no vão do envaidecer que ultraja.

✑ Pulso Solar

espaço
De sol em sol o amor andou tão solitário
e em voos abismais dissipou-se sofrido
em dor a reclamar do ódio comunitário
turvou a languidez do não-ser oprimido.

✑ Rutilância Vermelha

ceu avermelhado
Um brilho de sangue
cegou-me à noutinha,
minh'alma sozinha
faleceu exangue.

✑ Lua Cintilante

pessoas num cemiterio sob lua gigante
A lua, mãe noturna cintilante
no espaço fixada, porém instável
encantando a pobre alma alienável
e enganando o ser humano ignorante.

✑ Arfando

homem na floresta com mascara de gas
Pulmões esmagados; estou arfando
e tentando manter-me consciente.
Dores ressurgem e, subitamente
consomem minh'alma, filosofando.

✑ Orbital

Assassinei a lua na madruga;
incomodava-me vê-la sozinha
no espaço sinuoso que continha
apenas o vazio como fuga.

✑ O Sino

borboleta pousando sobre um livro velho
A vida não passa d'um perverso conceito
que sequestra tu'alma, teu corpo e teu desejo
e força-te a aceitar teu interno despejo
que despeja teu eu no próprio preconceito.

✑ Macuma

por do sol visto da floresta
A voz vermelha surge em densa bruma
num grito pávido, triste, e estridente
que, de doído e tenso desarruma
o sorriso feliz e irreverente.

✑ Meus Sonetos

varias velas formando um coração
Os meus sonetos escorrem d'um corte
dentro de mim, desde o antigo inverno;
Dele provém versos sem qualquer norte,
nascem palavras no silêncio alterno.

✑ Potência

explosão de bomba atomica
Varia o valor da moeda e o da vida
vai variando na mesma frequência;
valores morais e até da ciência
perdem-se na linha desconhecida.

✑ Tortura

escultura de pessoas sendo torturadas
Olhares pasmos, interpretativos
amargurados por grande tortura
refletem a morte, e na sepultura
espasmam os últimos sugestivos...

✑ Aflição

criança debruçada sobre piano
No timbre insano da música aflita
meu coração torna-se permeável
e na tortura interna e deplorável
ele sofre calado, mas milita.

✑ Emprestada

animação humana escalando gráfico
Tomastes minha pobre alma emprestada
e assim fugistes co' ela pelo mundo
vagastes por ai como um vagabundo
e esquecestes da promessa acordada.

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