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Mostrando postagens de Julho, 2018

Poema Frio

Um vento gelado domina a sala
meus ossos doem e minh'alma chora
lembranças táteis e fúteis de outrora;
hora que urge, frieza que me cala...

Ouço, de longe, o sino que badala
no imaginário ao despontar da aurora
e a tristeza, no frio, comemora
enquanto atinge o pico desta escala.

E eu bem preso aqui, querendo ir lá fora
mas a liberdade é grande demora
para quem está dentro da senzala.

Parei de sentir meus ossos agora;
sinto só o medo denso que resvala
e sequestra minh'alma ao destravá-la.

Gustavo V.S Ferreira
31/07/2018

À Porta

Olhos graves, a morte bate à porta;
na hora do medo até o tempo congela...
O coração pulsa sugando a aorta
pois por dentro dele há uma procela...

O ar esfria, a maçaneta se entorta,
escondo-me rápido, com cautela,
nesse momento, nada mais importa
somente me livrar dos rastros dela...

Cheiro de enxofre... Meu nariz suporta...
A morte tenta entrar pela janela
porém a fechadura está mui torta...

E volta à porta como sentinela
com tanta força, a porta não suporta...
A morte deixou só minha chinela.

Gustavo V.S Ferreira
30/07/2018

Poeta Morto

Preocupo-me em deixar um legado
que possa, minhas filhas, sustentar,
que consiga dar-lhes o mais puro ar
dentro deste mundo dissimulado...

A morte tem, aos poucos me rondado
e a qualquer momento pode atacar.
Logo, preciso me preocupar
e não ser mais assim, tão descuidado.

Serei impedido de respirar,
pelo acaso, talvez, assassinado
e sem tempo algum para me explicar

Serei um poeta mortificado
sem ao menos ter tempo de abraçar
minhas filhas c'um abraço apertado.

Gustavo V.S Ferreira
29/07/2018

Caminhos

Todos os caminhos estão errados
quando não sabemos nosso destino
ou enquanto estivermos bitolados
nas regras do pragmatismo asinino.

E quando os sonhos são randomizados
cada caminho será um mezanino
e os presentes, futuros e passados
tornarão nosso mundo em clandestino.

Assim prazeres são prejudicados
quando nós, agindo num desatino
preferimos ser os subordinados

à emoção, do coração peregrino;
Mas como os caminhos serão errados
quando já sabes qual é teu destino?

Gustavo V.S Ferreira
28/07/2018

Naquela Esquina

Ocorreu à noite, naquela esquina
onde o vento morre e sequer sussurra
sons fantasmagóricos na suburra
que forma palavras de adrenalina...

Ocorreu no silêncio da neblina
onde o tempo inverso, o relógio esmurra
e o medo do medo é nova panturra
que no estômago trêmulo culmina...

E sofrendo, a dor até nos empurra
a procurar morte como toxina
pra evitar a vida como uma surra...

Não quis morrer, porém a medicina
resolveu tardar, então fui bamburra
cheio de fraturas numa chacina.

Gustavo V.S Ferreira
27/07/2018

Silêncio

Silêncio! Preciso me decompor,
sentir minha carne pacificar
este meu coração que a saltitar
verseja no ritmo d'um trovador.

E nos versos fúteis em estertor
canta e zomba dos que estão a chorar
no vão barulhento a banalizar
a memória breve do viajor.

Os ébrios preferem não aceitar
que a paz real não têm mediador
e só existe no último expirar.

Façam silêncio agora, por favor
pois preciso desfazer-me neste ar
que rouba a alma de todo predador.

Gustavo V.S Ferreira
21/07/2018

Sou Rico

Poder morrer é o que me faz rico
e ter medo da morte me faz pobre;
aproveitar a vida me faz nobre,
desperdiçá-la torna-me impudico.

Da vida imoral e ilusória abdico
pois tal maléficos sonhos encobre
e faz com que a natureza soçobre
entre as necessidades que fabrico.

Desejo apenas que o meu tempo dobre
enquanto eu, só, envelhecendo fico,
na pureza que o envelhecer cobre.

No encontro co' a morte me purifico
enquanto minha vida redescobre
que sou rico só quando pacifico.

Gustavo V.S Ferreira
20/07/2018

Uni Versos

Da galáxia mais distante do verso,
na imensidão escura e redundante,
no espaço-tempo lírico e instigante,
ergue-se o epicentro controverso.

Objeto humanoide, reles e adverso
não estuda o obscuro e inda ignorante
considera-se obra-prima impactante
num pedaço de Terra e céu disperso.

Sou só poeira estelar meliante
resultado do acidente transverso,
ignição desta vida petulante.

Sou humanoide e também sou perverso
mas nunca fui vital ou importante
p'ra a existência de qualquer universo.

Gustavo V.S Ferreira
19/07/2018

Infinito

Escafedeu dos seus olhos, o grito
num forte ímpeto quebrou seu pescoço;
foi um baque retumbante - alvoroço!
foi um som triste, mortal e erudito.

Foi um voo planejado, restrito;
não houve emoção, razão ou esboço
desse plano final, fatal, insosso,
do medo de enfrentar qualquer conflito.

O tempo parou e afundou no poço,
o mundo sem tempo tornou-se aflito,
o poço era fundo; o tempo remoço.

Olhos fixos, horizonte contrito
estilhaçando ao estilhaçar do osso
quebrando as juntas do meu infinito.

Gustavo V.S Ferreira
18/07/2018

Morfema

A morte é a única solução
capaz de resolver qualquer problema;
É real, não apenas teorema,
é nossa verdadeira salvação.

Pela morte alimento uma paixão
que me enfeita feito algum diadema
fúnebre; Prego que a morte é morfema,
é luz, é fogo, é cicatrização!

É o final deste nosso subsistema
que é a vida, nossa religião,
que falha em ser mundo do treponema.

Espero a morte, minha redenção
nas linhas solitárias do poema
que faz da morte homogeneização!

Gustavo V.S Ferreira
17/07/2018

Anjo Sombrio

Na madrugada taciturna, um anjo
sobrevoou o meu corpo sombrio,
despertou-me num grande calafrio
fez morada em meu ser, seu novo arranjo.

Ganhou das garras da morte, um marmanjo
venceu o meu noturno desafio
destruindo meu antigo vazio
dando asas escuras ao calambanjo.

Transformou-me! Ganhei novo feitio!
Deixei de ser um humano macanjo,
pois seu sangue curou o meu fastio.

Sanguinolento neste rearranjo,
ressurgi mais seco e muito mais frio,
tocando música mortal num banjo.

Gustavo V.S Ferreira
16/07/2018

Ela Partiu

Deu um suspiro e partiu
partiu o meu coração
deu um suspiro e sorriu
numa última reação.

Nesse instante desistiu
da vida e da percepção;
seu pulso não resistiu
foi procurar redenção.

A sua morte sutil
foi a minha expiação,
o meu coração sentiu.

A minha alienação
bem naquela hora ruiu:
Abril foi sua ascensão.

Gustavo V.S Ferreira
15/07/2018

Detenção

Quais valores da nação
se mal sabemos quem somos
enquanto nos decompomos
sem alguma educação?

Só aumentam a emoção
e rápido nos dispomos
a crer. Assim, justapomos
a negligência à razão.

Então p'ra eles expomos
tal forma de coação;
porém, nada útil propomos.

Tomamos a detenção
sendo apenas cromossomos:
Crendo que era ostentação.

Gustavo V.S Ferreira
14/07/2018

Atraso

Às vezes me atraso
e caio da escada,
chego na calçada
tropeço; descaso!

De raiva extravaso
nesta dor calada
forte e adiantada
que vem cedo; ocaso!

E a vida atrasada
sem qualquer embaso
segue embaraçada.

Sofro, e neste caso
minh'alma cansada
vai morrendo à prazo.

Gustavo V.S Ferreira
13/07/2018

Era Madrugada III

Ela descansava
em paz, transformada;
quieta no nada,
calma, sussurrava...

À morte cantava
bela desalmada,
linda e desarmada
em canto assombrava...

E amaldiçoada
em sombra pairava
anestesiada...

Em sonho falava:
Nesta madrugada
su'alma vingava!

Gustavo V.S Ferreira
10/07/2018

Era Madrugada II

Morte projetava
enquanto ocupada
ela só e calada
atenção me dava.

Luz que se apagava
na vil madrugada
fria, amargurada,
vida evaporava...

Ela imaculada
até levitava
mas não era alada...

Eu comemorava
ela, ali deitada
morta, descansava.

Gustavo V.S Ferreira
09/07/2018

Era Madrugada I

Era madrugada
o vento soprava
a lua cantava
na rua espantada.

A Terra assustada,
ela madrugava
e eu, triste, penava
durante a alvorada.

Ela digitava
virtualizada,
visualizava...

A frase enviada
virtualizava
morte projetada.

Gustavo V.S Ferreira
09/07/2018

O Grito

Dorme tarde e mui cedo se levanta,
vive somente para trabalhar;
...Ainda sabe o que é transpirar
pois no olhar triste a lamentar, decanta.

E seu lamento aos poucos se agiganta
a sua vida quase a suplantar;
recolhe-se ao léu, sem céu p'ra voar,
choca-se no ar, na terra se aquebranta...

Em pedaços no chão a se espalhar
numa velocidade que abrilhanta
queima-se na luz, véu subliminar...

De tanto tentar, a morte suplanta
a vida fraca ainda a respirar
no último grito preso na garganta.

Gustavo V.S Ferreira
09/07/2018

Orbe da Morte II

O tempo passa sem sonoridade;
fixo, cumprindo a sua disciplina
somente por acaso, sem ser sina
ou mesmo pouca subjetividade.

Tempo não tem especificidade
e não precisa receber propina;
jamais te ajudará na jogatina,
o tempo não requer cumplicidade.

Se a tua vida é pura adrenalina
e o teu tempo somente ambiguidade
em apoio só ao que te fascina;

Hás-de morrer em efemeridade
num orbe fatal que até desatina
as luzes solitárias da cidade.

Gustavo V.S Ferreira
07/07/2018

Inflamado

Enganado, o meu peito inflama e clama
tremendo em intensa e amarga dor
perante o escárnio avassalador
que o teu egoísmo cruel derrama...

E repulsando e ardendo em chama e drama
afunda intrépido no desamor
que enche o peito de amargo sabor
amplificando assim, o denso trama.

E ressurreto em dor, torpor e amor
orgulha-se do ódio, de rama a rama
e desabrocha, na vingança, em flor.

E meu peito vivo, difama e aclama
pelo credor do amor estivador,
pulsando em lusco-fusco, o mal proclama.

Gustavo V.S Ferreira
04/07/2018

Orbe da Morte

Não vês! Não é a vida que me anima
tampouco a busca por felicidade;
Não! Não é o futuro da humanidade
que nos fará recalibrar o clima.

Destruímos o planeta obra-prima
saciando nossa necessidade;
a natureza em flor, em puberdade
desfez-se em sonho breve, sem colima.

Nossos planos sem reciprocidade
são como aquela bomba de Hiroshima
pronta pra luzir com sonoridade.

O orbe da morte compõe a rima
e as luzes solitárias da cidade
desconhecem o mal que se aproxima.

Gustavo V.S Ferreira
04/07/2018

Versos Viscerais

Ninguém quer ver o quanto é formidável
descobrir que somos civil quimera
tão solitários quanto uma pantera
que da morte é amiga inseparável.

Acostumamo-nos ao fim que espera
trazer-nos o conforto miserável
neste nosso morrer inevitável
nas garras da mais vil e mortal fera.

Queimamos a vida como um cigarro
e apagamo-nos num rápido escarro
cujo o tempo apressa enquanto apedreja...

E nossas lembranças como uma chaga
encontram na morte que nos afaga
a paz eterna do fim que nos beija.

Gustavo V.S Ferreira
03/07/2018


* Este poema foi escrito como um Tributo ao grande e espetacular Augusto dos Anjos.
Foi um desafio proposto por um amigo, que também é fã do grande poeta, que incitou-me a escrever um soneto cujo os versos terminassem exatamente com as mesmas palavras que terminam os versos do soneto "Versos Íntimos" de Augusto dos Anjos.  Sei que não fiz jus, mas cumpri o desafio.

Patologia

A vida d'alguns seres é um catarro
durante a longa agonia fremente
que controla deliberadamente
o pulso e a respiração do barro.

Porém ninguém vê este ser bizarro
lutando e sofrendo tranquilamente
p'ra não ser somente um ser diferente,
não-ser apenas cinzas de cigarro.

E a ânsia para ser livre é mormente
e encontra o vitimismo num esbarro
que o ser do mal, tão raro, jaz dormente.

O universo conspira e num pigarro
atravessa a lua em vida pungente
e a vida assim não passa d'um escarro.

Gustavo V.S Ferreira
02/07/2018