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Poema Diário


Far-lhe-ei um poema por dia:  meu dilema.
Ficarás no meu tema, mesmo se não quiseres.
Ainda que não esperes, estarás em meu lema,
musa de Ipanema (da garota diferes)!

Ainda que dilaceres este poeta nato,
encontrarei no mato motivos para compor.
E se eu encontrar dor jamais serei ingrato,
estando putrefato ou não, serás meu amor.

Então farei, sem temor, um poema por dia;
mesmo sem alegria,  encontrarei-te em mim
e plantarei um jardim de poemas nas manhãs.

As lembranças artesãs em minha utopia
darão autonomia até que chegue o fim:
poemas de ínterim  para estrelas anãs.

Gustavo V.S Ferreira
29/04/2018

Comentários

Mais lidas da semana

Inferno

Será que os mortos nunca ressuscitarão?
Será que serão condenados ao inferno
e queimarão num fogo terrível e eterno
enquanto achamos que tudo é uma ilusão?

Gustavo V.S Ferreira
26/05/2018

Sufixo

A vida quando é muito radical
exige mais vida como prefixo;
pode exigir morte como sufixo
ao romper o cordão umbilical.

Respirar pode ser ato prolixo
e por vezes, também será letal;
viver numa ladeira vertical
é transpirar em tempo semi-fixo.

O sonho pode até ser tropical
feliz, belo, perfeito ou surreal
mas nunca será mais que um crucifixo...

Viver é um pesadelo pessoal
à base da injustiça social
e que neste soneto hostil, transfixo.

Gustavo V.S Ferreira
21/08/2018

Chuva de Sangue

Chuva de sangue em dia purulento:
quanto vale uma vida quase humana?
A bala é forte e corta até o vento...
redefinição do fim de semana?

Uma neblina deixa o olhar cinzento,
a alma morta na pólvora que emana
do tubo de metal, bélico invento
esvai-se sem amor e sem nirvana.

Quem determinou o valor da vida?
Quem é capaz de ter algum valor
diante da insanidade envolvida?

Alguém vai deter a chuva de sangue
quando as vidraças mudarem de cor
e o líquido vital tornar-se um mangue?

Gustavo V.S Ferreira
18/11/2018



Narração

Morfema

A morte é a única solução
capaz de resolver qualquer problema;
É real, não apenas teorema,
é nossa verdadeira salvação.

Pela morte alimento uma paixão
que me enfeita feito algum diadema
fúnebre; Prego que a morte é morfema,
é luz, é fogo, é cicatrização!

É o final deste nosso subsistema
que é a vida, nossa religião,
que falha em ser mundo do treponema.

Espero a morte, minha redenção
nas linhas solitárias do poema
que faz da morte homogeneização!

Gustavo V.S Ferreira
17/07/2018

Suicídio

Estamos presos neste precipício
ainda não sabemos como sair
e semimortos, quase a sucumbir
desejamos retornar ao início.

Porém o tempo não está propício
e não há uma forma de interagir;
é até mais difícil distinguir
se estamos ou não num enorme hospício.

A incerteza parece persuadir
ofertando-nos algum benefício
entusiasmada em nos confundir...

Co' as vidas presas neste desperdício
o suicídio parece um souvenir
humano e também, da paz, um resquício.

Gustavo V.S Ferreira
22/06/2018

Não Quero Ser Amado

Eu não quero ser amado, não quero que você diga que sou o amor da sua vida,
a pessoa com a qual você sonhou a vida inteira. Não desejo ser
nenhum objeto de satisfação total de alguém.

Não quero ser teu amor, nem recebê-lo.
Pois sei que juntamente com a frase "te amo",
vem outras coisas, exigências e condições as quais não quero que me prendam.

Não espero que fales palavras mágicas para mim,
nem que fiques o dia inteiro ditando coisas doces, que logo,
quando as exigências não forem cumpridas, sucumbirão e se tornarão em ódio.

Não quero que me peças pra ser o teu homem,
pra ser teu capacho, ser teu chão, tua luz, teu céu, teu mundo;
não quero que exijas nada de mim, assim como jamais exigirei nada de você.

É estranho para mim essa conversa sobre amores e felicidades,
pois sei que as pessoas não estão dispostas a sentir o amor tal como ele é,
ou pelo menos, como deveria ser.

As pessoas fazem questão de dizer, repetidamente que nos amam, mas exigem recompensas,
tal como um cão …

Emprestada

Tomastes minha pobre alma emprestada
e assim fugistes co' ela pelo mundo
vagastes por ai como um vagabundo
e esquecestes da promessa acordada.

Fiquei co' a vida desequilibrada
submersa no meu pior, no submundo
que é mui frio, vazio e nauseabundo;
sinto-me sem forças e violentada.

Tomastes a minh'alma num segundo
e deixastes-me só e abandonada
sem fôlego, sem vida mas prostrada...

Agora em tristes lágrimas afundo
sozinha ao aceitar ser humilhada;
fiquei sem honra, sem vida, sem nada.

Gustavo V.S Ferreira
01/08/2018

Aflição

No timbre insano da música aflita
meu coração torna-se permeável
e na tortura interna e deplorável
ele sofre calado, mas milita.

Tenta fugir das notas que limita
e soltar-se da corda miserável
que o faz sofrer do mal inenarrável
tão denso que até o impossibilita

de ser bem mais que um pulso inigualável
na sinfonia interior erudita
da música sacra indissociável...

E a música externa sem paz conflita
co' essa música interna inexorável
que faz noss'alma ser cosmopolita.

Gustavo V.S Ferreira
02/08/2018

Alma

Minh'alma penando nas madrugadas
pagando pecados, esperando a hora
que este mundo a deixará ir embora
loucamente por escuras estradas.

E arrastando-se em eternas calçadas
ela grita, resmunga, canta e chora;
sua tristeza, aos poucos a devora
co' antigas lembranças deturpadas...

Sua bondade, devagar, deflora
em novas memórias tão desgraçadas
que colidiram nos tempos, outrora...

E perdida entre outras almas penadas,
no vazio que em nada colabora
morre nas sombras anastomosadas.

Gustavo V.S Ferreira
17/06/2018

Pulso Solar

De sol em sol o amor andou tão solitário
e em voos abismais dissipou-se sofrido
em dor a reclamar do ódio comunitário
turvou a languidez do não-ser oprimido.

E esse ódio visceral no peito temerário
move o magma imortal no espaço comprimido;
pulsando à explosão do dia embrionário
expandindo a visão em fogo compelido.

De sol em sol o aval tornou-se hereditário;
cada raio solar em trevas envolvido
era vida a gerar um novo sedentário.

E aquele turvo amor, etéreo embevecido
em ondas orbitais - céu interplanetário -
foi pulso inicial do breu desconhecido.

Gustavo V.S Ferreira
12/08/2018