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A Bonequinha de Gelo


Despi-me dos meus pensamentos, abandonei minhas obrigações sociais e fugi...
Fui procurar algo que fizesse sentido mundo afora, tentar entender o acidente da vida...
Mundo afora, experimentando as mais diversas sensações, ultrapassei fronteiras
matas, pedras, calor e frio, ainda assim não vi sentido na vida.

De fato, nada faz sentido, embora, o nada seja apenas uma palavra aguardando definição.
Caminhei por diversos caminhos, até não haver mais terra para pisar, até olhar o horizonte
e visualizar apenas cores, efeitos coloridos a me hipnotizar e me perdi...

Perdi-me por não haver mais caminho, tudo que havia no horizonte eram cores acima de mim
e abaixo, apenas o branco-puro rodeava-me, sem rastros, nem caminhos...

Sem companhia, contato com o mundo afora, sem água e sem comida
resolvi parar e economizar energia, embora o frio começasse a me atormentar...
Devido às circunstâncias, meu cérebro perdeu a razão, tudo era variável...
Apenas as lembranças delas me mantiveram vivo, em meio a tanta bagunça,
as lembranças dela eram as únicas constantes a manter meu cérebro neste mundo.

Quase delirando e com saudades,
por muito tempo, nem a água nem a comida me fez tanta falta
quanto a presença dela...
Acabei acostumando-me com o frio...
Meu corpo ousou adaptar-se ao mundo gélido e agora sem cor que me rodeava...
Assim, meu coração congelou, não pulsava mais, apenas as crostas de gelo
que o fizeram parar o mantinham intacto...

Quase enlouquecendo, resolvi realizar uma lembrança,
pois assim como o boneco de barro teve sua companhia,
este homem do gelo, esperava fugir da solidão...

Assim, reunindo as lembranças que ainda possuía dela
e com medo de que se esvaíssem de mim, tirando-me a única coisa que ainda importava,
resolvi fazer uma escultura dela, em gelo puro e alvo...
Assim, transformei-a, numa bonequinha de gelo...

Sim, pode parecer coisa doutro mundo, mas essa bonequinha de gelo
me fez sentir-me novo, em companhia...
E, apaixonado pela bonequinha de gelo, reparei que a boca não era tão bela quanto a dela,
que a cintura não era tão fina quanto a dela,
que os olhos não eram tão brilhosos e fugazes como os dela,
que o sorriso não era tão puro quanto o dela...
Descobri que minha bonequinha de gelo, de fato, não era nem se parecia com ela...

Reuni minhas forças, concentrei tudo o que podia em melhorar a bonequinha,
redesenhei-lhe a boca, os olhos, os cabelos, o corpo...
Mas nada do que eu fizesse fazia a bonequinha de gelo satisfazer a saudade dela...

E de tanto concentrar forças em moldá-la,
passou-se horas, dias, meses...

Até que um dia,
olhei para o horizonte e vi vários bonecos de gelos, distantes
caminhando em minha direção...
Percebi o quão louco eu havia ficado, a ponto de imaginar-me num mundo
onde somente os bonecos de gelo existiam e eram reais...

Fechei meus olhos, tentei desacreditar no que vi,
até que recebi um toque quente, tão quente que me fez entrar em colapso...
Horas depois, acordei num lugar pálido e frio, mas dessa vez, estava bem acomodado e aquecido...
Meio tonto, percebi que estava num lugar real, pensei que estivesse morto e aquilo representava o paraíso...
Tudo era calmo e frio, o silêncio dominava o ambiente até que,
a porta abriu-se e para minha surpresa, a bonequinha de gelo apareceu frente a mim...
Sem conseguir entender, e sem compreender as sensações que sentia naquele momento,
tive a certeza que eu havia morrido no frio, e que, em algum lugar divino,
alguém me presentou com uma bonequinha de gelo real...

Até que ela sentou-se ao meu lado, seus olhos brilhavam e não eram como eu lembrava,
eram mais belos e brilhantes, e deles saiam algo precioso e límpido, parecido com água...
Olhando-me atentamente, a bonequinha de gelo falou...
Não consegui ouvi-la, pois meu cérebro entrou em colapso novamente devido a emoção...
Acordei dias depois, e dessa vez, estava rodeado dos meus parentes, agora, eu havia voltado ao mundo real...
Eu não havia morrido...
Entristeci-me, o mundo onde eu estava era bem mais belo,
e mesmo que não fosse, lá eu tinha minha bonequinha de gelo...

Até que, um médico me explicou que uma equipe de buscas me encontrara perdido na Antártida, só, desnutrido e quase louco...
E mesmo dias depois de estar internado, demorei recobrar minhas memórias e confundia o mundo real com mundos imaginários...

O médico ainda me disse que entrei em colapso quando recebi e visita de alguém que eu amava...

Sim!
Fiquei tanto tempo desligado de mim mesmo que esqueci que minha boneca de gelo sempre existiu, sempre foi real...
E agora, estava feliz novamente!

Tempos depois, disseram-me que, só não morri porque mantive minha mente ocupada trabalhando "em várias versões de uma boneca de gelo"...
Essa ocupação fez com que meu cérebro liberasse hormônios no corpo, mantendo-me vivo...

Minha bonequinha de gelo me salvou!

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Sou O Astronauta-arcanjo supernal,
filho da ordeira morte original,
herdeiro marginal do último grito.

Farei tu’alma tremer ante o real
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Gustavo V.S Ferreira
23/02/2019

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herança casual bio-peregrinante
que força a forca à força astral aglomerante
no animal racional que quer ser celebrado.

P'ro memorável ser há busca extravagante
se acaso quiser ser um imortalizado
deixará de viver de forma aconchegante.

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Gustavo V.S Ferreira
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forçando-me a usar uma lanterna.

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Amedrontado, acendo mi’a luzerna
nado para fora dessa cisterna
enquanto outro, de mim, somente zomba.

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Gustavo V.S Ferreira
14/02/2019